Perigo: Zona do Euro
DANGER: EURO-ZONE
Esse assunto já foi amplamente discutido nesse blog de forma
bem geral e retratando os acontecimentos recentes, como por exemplo, a
definição das medidas de austeridade, forma de liberação dos trilhões de dólares
para o salvamento da euro zona, entre outros.
Entretanto não abordamos, aqui, quais são as verdadeiras
origens dessa crise que está diariamente nos telejornais e dando a cada dia uma
grande volatidade no mercado financeiro global.
Para muitos, a crise da zona do euro é uma crise fiscal, o
que é definida como a incapacidade do Estado em arcar com às demandas cada vez
maiores dos vários setores da economia e grupos correspondentes (definição de
James O’ Connor em 1973). Contudo se analisarmos o balanço fiscal dos países da
zona do euro, mais especificamente os da região sul – mais afetados pela crise –
até 2008 era bem controlado. O que nos leva a OUTRA FORMA da
origem da crise europeia. Seria uma crise de BALANÇOS DE PAGAMENTOS ?
É evidente que a região norte da Europa, destacando a
economia alemã, é mais rica do que os países do sul europeu, que são os mais
afetados pela crise, tais como Grécia, Portugal e Espanha. Essa diferença das economias, juntamente com a
moeda comum , onde o euro é forte no norte e fraco no sul, ocorrendo uma linha
de fluxo cambial no continente europeu. Esse fluxo de capital, ao invés de
serem investidos em produção, geração de empregos e em pontos fortes da
economia , foi utilizado para financiar consumo interno e o BOOM imobiliário.
Essa “formula” descrita acima resulta em: um grande desequilíbrio
na conta corrente e nos fluxos de capitais, cominando na crise fiscal. Então, a
crise da euro zona é fiscal ou no balanço de pagamentos ?
O jornal Valor Econômico, que em minha opinião é o melhor
jornal econômico-financeiro do país, publicou uma matéria com economistas e
estudiosos da área econômica questionando-os a respeito das origens da crise. Vide
abaixo a matéria.
Abaixo as posições de
cada um dos analistas ouvidos pelo Valor:
Paul Donovan, economista global do UBS Investment Bank
"Acreditamos que a origem da crise da zona do euro reside no
fato de que o euro não funciona como uma união monetária. Isso significa que
essa é, simultaneamente, uma crise fiscal e uma crise de balanço de pagamentos.
A natureza inapropriada da política monetária comum e a ausência de uma
política fiscal comum forçaram os governos individuais a fazer políticas
fiscais anticíclicas por períodos longos para compensar os estragos de uma
união monetária erroneamente criada. De modo similar, a natureza da política
monetária permitiu que muitas economias mantivessem déficits em conta corrente
maiores que os devidos por longos períodos. A ausência de uma união bancária
apropriada na zona do euro levou esses déficits a serem financiados
desproporcionalmente por fluxos de capitais internacionais voláteis, os quais
secaram logo após a crise de 2008."
Ricardo Santos, economista do BNP Paribas para a Europa
"Essa é uma crise de balanço de pagamentos que obviamente tem
duas ramificações, o setor privado e o setor público, sendo o ramo fiscal o que
mais se destacou nos últimos anos - principalmente na Grécia e em Portugal. Na
Irlanda e na Espanha, a crise é mais de balanço de pagamentos. Os governos
desses países estão em piores condições porque tiveram que ajudar seus
respectivos sistemas financeiros durante a crise de 2008. Na Grécia e em
Portugal, a crise é quase 100% um problema simultaneamente fiscal e de balanço
de pagamentos. Vemos que não se trata apenas do comportamento das contas
correntes, mas também do comportamento do crédito, que subiu muito mais na
Irlanda e na Espanha, levando a um aumento no preço dos ativos, como o preço
das casas, e fez com que os países tivessem que intervir para ajudar seus
bancos. Quando observamos a evolução da crise da zona do euro, vemos que todos
os países que agora estão com dificuldades são justamente aqueles com os
maiores déficits em conta corrente como porcentagem do PIB. Portugal e Grécia
têm problemas fiscais, mas não podemos esquecer que há um país com problemas
acima de tudo fiscais e grandes questões em termos de conta corrente, que é a
Itália."
José Manuel González-Páramo, professor de economia do IESE (Universidade
de Navarra) e ex-membro do BCE
"O melhor predecessor para a crise em alguns países europeus
é a posição líquida internacional. Aqueles países com maior investimento
líquido negativo acumulado são, precisamente, os que estão sofrendo mais
atualmente. Em diversos casos, a persistente necessidade de incentivar os
mercados internacionais deveu-se essencialmente a uma enorme expansão do
endividamento privado, frente a uma economia superaquecida vivenciando perdas
de competitividade. Esses são os casos da Espanha e da Irlanda, países nos
quais as contas do setor público estavam balanceadas e os níveis da dívida do
setor público eram relativamente baixos. Em outros, como na Grécia, os
desequilíbrios do setor público agravaram o problema. Em contraste, países com
déficits ou dívidas públicas relativamente altos nos anos antecedentes à crise
americana de 2008 estão atravessando a crise, de certa forma, bem. Com a
ausência de mecanismos de absorção de choques - como um orçamento federal ao
nível da União Europeia, mecanismos de seguridade financeira e flexibilidade
nominal na taxa de câmbio -, os países que têm grande necessidade de
refinanciamento estão sofrendo com a saída repentina dos investidores."
Charles Goodhart, professor da London School of Economics e
ex-membro do Banco da Inglaterra (BoE)
"O que estava acontecendo é que países como a Irlanda e a
Espanha e, em menor grau, Portugal, estavam mantendo déficits em conta corrente
muito altos. Os resultados deficitários foram causados pelo enfraquecimento dos
fluxos de capitais, os quais haviam sido afetados pelo boom financeiro e de
investimentos - primeiro pelo boom de investimentos no setor imobiliário. Isso
significa que as dívidas do setor privado da Irlanda e da Espanha estavam
aumentando rapidamente, em particular o endividamento dos bancos. Depois, ficou
óbvio que o setor imobiliário estava passando por dificuldades e houve
contaminação através da percepção do que estava ocorrendo nos EUA. Os fluxos de
capitais dos bancos simplesmente secaram e houve uma queda brusca no
investimento, no preço dos imóveis, na riqueza desses países e no consumo.
Esses fluxos de capitais foram substituídos por arranjos de transferências
bancárias Tier 2 no continente, promovidos pelo BCE. O problema, contudo, era
reestabelecer a competitividade que se perdeu durante o boom dos investimentos
e, ao mesmo tempo, o equilíbrio nas contas correntes, evitando um déficit ou
até mesmo perseguindo um superávit. A crise da zona do euro se tornou uma crise
fiscal porque o endividamento dos bancos nesses países se tornou tão severo que
o setor público foi obrigado a recapitalizar os bancos, enfraquecendo a posição
fiscal dos governos a tal ponto que o desequilíbrio na conta corrente virou uma
crise bancária, fiscal e de balanço de pagamentos."
Salvatore Cantale, professor de finanças do IMD Business School
"Acredito que a atual crise europeia não pode ser atribuída a
apenas uma causa. As duas explicações levantadas - a imprudência fiscal e a
crise de balanço de pagamentos - estão corretas, mas elas dificilmente são a
causa do problema do euro. A segunda explicação, sobre o balanço de pagamentos,
fez com que o problema fosse notado mais cedo, e a primeira, a imprudência
fiscal, é apenas a ponta do iceberg. O real problema do euro é o euro. A falsa
sensação de segurança de que "estar em um navio grande reduz o risco de
naufrágio" deu aos governos e cidadãos na zona do euro a possibilidade de
financiar atividades populistas em vez da criação de valor [gastos correntes x
investimentos]. Uma vez que as economias europeias não precisavam mais lidar
com a desvalorização da moeda, porque estavam dentro do euro, o monitoramento
contínuo do mercado de câmbio deixou de ser possível."



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