Consumo racional?
“Nós estamos a assistir ao que eu chamaria a morte do cidadão e, no seu lugar, o que temos e, cada vez mais, é o cliente. Agora já ninguém nos pergunta o que é que pensamos, agora perguntam-nos qual a marca do carro, de fato, de gravata que temos..”
(José Saramago)
Mais uma vez a Apple causa um grande agito no mercado tecnológico com o lançamento do Iphone 11, revolucionando e levando os smartphones a níveis jamais imaginados.
Uma característica que vem se tornando comum nos lançamentos da ‘marca da maça’ é a divulgação de mais de um modelo / versão do modelo lançado, característica essa que vem se tornando uma tendência da marca com o passar dos anos.
Estudos realizados comparando os preços dos celulares da Apple no decorrer do tempo apresenta uma queda considerável nos preços desses bens em menos de um semestre após o lançamento, embora ainda seja um dos celulares mais caros do mercado, a demanda continua elevada porém a ideia é que com o lançamento de um novo modelo basicamente a cada semestre os consumidores perdem o interesse e preferem aguardar um novo lançamento para realizar a compra.
A ideia por detrás dos lançamentos contínuos dos produtos tecnológicos é a obsolescência programada, ou seja, o tempo de atratividade e de utilidade desses produtos são controlados exclusivamente pelas empresas.
Tomemos como exemplo o Iphone, através de atualizações dos softweres a Apple faz com que os celulares mais antigos não sejam mais compatíveis com as atualizações mais recentes.
Ok, até certo ponto pode ser a capacidade do hardware em suportar o novo sistema operacional, mas obviamente essa forma de criar a própria demanda pelo novo é extremamente rentável para a empresa. Essa característica é muito comum nos mercados em que existe alta tecnologia envolvida.
Outra estratégia muito utilizada pela Apple é a ancoragem de preços. Essa tática comercial é muito utilizada na economia para que o parâmetro comparativo do consumidor seja alterado e que ele deixe de achar que determinado bem ou serviço é extremamente caro quando tem um similar um pouco mais barato, por exemplo: Uma pessoa está disposta a pagar 8 mil reais em um celular sendo que o seu comparativo custa entre 3 ou 4 mil? Dificilmente.
Pois bem, e se uma mesma marca lançar o mesmo produto, porém com mínimas alterações em que o mais simples custe 7 mil e o mais ‘’top’’ custe 10 mil. É muito provável que esse mesmo consumidor deixe de achar os 10 mil (valor acima do exemplo anterior) muito caro ou algo inacreditável a se pagar em um celular, deixando de ser algo relacionado ao do poder de compra mas sim pela racionalidade no consumo.
Basicamente todas as teorias e modelos econômicos partem do princípio que o consumidor é racional e toma suas decisões de consumo com base a otimizar sua cesta de produtos e serviços que satisfazem suas necessidades. Porém quando o consumo é meramente baseado em uma ostentação (e é aqui que o fator preço entra) onde o consumo deixa de ser com base no valor da mercadoria e passa a ter o valor social do ‘’eu posso pagar 10 mil reais em um celular” cai por terra os princípios de consumo racional.
Assim como quase todas as empresas de tecnologia, ao lançarem algo novo, elevam-se os preços para que aqueles consumidores que estejam dispostos a serem os primeiros a adquirir o produto possam pagar mais caros pelo pioneirismo e as empresas lucram quantidades inimagináveis com esse tipo de consumo irracional.
Muito embora os smartphones passaram a ser praticamente uma extensão do corpo humano, onde estamos a uma tela de distância para qualquer lugar do mundo ou para qualquer informação sobre qualquer assunto. Hoje não há mais como não se atualizar ou não acompanhar a tecnologia, porém é necessário que haja a tomada de decisão racional no consumo.
Obviamente todos nós queremos estar atualizados e por dentro da tecnologia, mas é altamente recomendável que nos questionemos em alguns momentos no sentido de otimizar a utilidade do dinheiro e tornar o consumo mais consciente ao invés de meramente ostentativo e para isso é muito importante entender a lógica por trás do consumo e das estratégias empresariais utilizadas em nossa economia contemporânea.

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