DÓLAR SOBE, DÓLAR DESCE…

“Vinha eu de um banco, aonde fora saber notícias do câmbio. Não tenho relações diretas com o câmbio; não saco sobre Londres, nem sobre qualquer outro ponto da terra, que é assaz vasta, e eu demasiado pequeno. Mas tudo o que compro caro, dizem-me que é culpa do câmbio” (Machado de Assis,1896)
Diariamente recebemos notícias relacionadas a economia, seja naquele bate-papo descontraído com o pessoal do trabalho, naquele jornal diário, no rádio ou via redes sociais. Muitas vezes não damos a importância necessária para esse tipo de notícia, porque muitas vezes não entendemos o impacto disso em nossas vidas. Um excelente exemplo é a oscilação do valor do dólar e como isso impacta em nossas vidas.
A variação da moeda americana tem um impacto no nosso dia-a-dia que nem imaginamos, independente de termos uma viagem agendada ou iremos importar qualquer tipo de produto.
O primeiro passo para entender esse impacto é conhecer o funcionamento básico do mercado cambial e porque ele sobe e desce frente a algumas situações. Por definição, o câmbio é o PREÇO de uma moeda (real, dólar, euro, iene, etc.) como mercadoria, ou seja, quantos reais são necessários para comprar uma unidade de dólar e vice-versa. Já o mercado cambial é definido pelas relações de venda, compra e troca de uma moeda por outra com a finalidade de facilitar as transações entre os países.
Durante a revolução industrial a moeda referencial em todo o mundo era a Libra Esterlina, considerando que na época a Inglaterra era a potência econômica mundial. Isso mudou com o advento do século XX, quando o Estados Unidos passa a liderar o mercado mundial legitimando-se como potência econômica. Com essa posição global alcançada pelos EUA a moeda que passa a ser considerada forte e como referência nas transações no mundo é o DÓLAR.
Mas, o que faz o preço subir e descer todos os dias neste mercado?
O conceito principal que explica as variações em qualquer tipo de mercado que é formado por um comprador e um vendedor (independentemente do tipo de mercadoria, no caso estamos adotando a moeda) são as forças de OFERTA X DEMANDA. Quando a demanda é maior que a oferta, ou seja, quando existem mais pessoas querendo comprar dólar do que mais pessoas dispostas a vendê-lo o valor tende a aumentar e o contrário também é verdadeiro, quando existem mais pessoas querendo vender do que pessoas querendo comprar a tendência do preço é diminuir.
Mas…quem vende? Quem compra? Qual a relação disso no meu dia-a-dia?
Como vimos o dólar é usado como referencial em todo mundo, ou seja, é usado para todos os tipos de transações ao redor do globo desde pessoas comuns em suas viagens de férias, investidores, indústria agropecuária exportadora/importadora, gigantes do mercado financeiro, países para balancear suas reservas internacionais e diversos outros players que necessitam da moeda para realizar suas operações.
Todos esses agentes do mercado são tomadores de decisões, as quais podem ter inúmeros motivos: minimizar risco do investimento, balancear a força da moeda interna de um determinado pais, proteção contra incertezas em um cenário político, entre outros.
Um exemplo prático que podemos adotar para entender melhor a movimentação do mercado cambial é a oscilação de alta do dólar nos últimos dias. Essa alta é representada no gráfico disponibilizado pelo ValorPro que aponta o dólar comercial acima dos R$ 4,00 e o dólar turismo acima dos R$ 4,20 .
Fonte: ValorPro
Essa alta pode ser explicada como um reflexo da tensão na política mundial junto com uma incerteza política interna.
A guerra comercial entre os EUA e a China tem gerado grande impacto no mercado financeiro, principalmente pela incerteza quanto à implantação de barreiras tarifárias entre as duas principais economias do mundo e como isso poderá mudar o fluxo e a dinâmica do comercio ao redor do globo.
Outro ponto é a tensão política interna, onde há um impasse e uma morosidade imensa na definição da reforma da previdência, tema este que merece certa urgência considerando que o Brasil não terá recursos suficientes para manter o sistema nos moldes atuais.
Além das tensões citadas tem também a questão do desemprego no Brasil, que ficou em 12,7% de acordo com a Pesquisa Nacional a Domicílios.
Todas essas questões impactam diretamente na cotação do dólar no Brasil, considerando que:
1) Há um aumento da procura pela moeda dado pela incerteza mundial.
2) Os investidores externos que aplicam no Brasil optam por migrar seus investimentos para ativos de outros países com maior estabilidade política e econômica.
Agora você deve estar se perguntando: Legal, mas o que muda na minha vida?
1) POSSÍVEL INFLAÇÃO: A inflação é basicamente quando o dinheiro passa a valer menos, ou seja, o poder de compra diminui. Considerando grande parte dos insumos usados na produção nacional é importada, um aumento considerável no dólar irá ser repassado ao produto final, gerando inflação e por consequência nós, os consumidores finais, pagamos mais pelo mesmo produto (perda poder de compra)
2) TURISMO: Todos nós em algum momento da vida planejamos uma viagem ao exterior e uma das preocupações é “Quanto dinheiro levar? Quanto dinheiro irei precisar lá? Com o aumento do dólar, o dólar-turismo também está cada vez mais alto, extrapolando os R$4,20 o que aumenta consideravelmente o custo total da viagem.
3) FOMENTO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA: Um viés positivo pode ser o aumento de consumo de bens produzidos totalmente no Brasil, considerando que os importadores poderão substituir o importado pelo nacional. Entretanto esse assunto necessita de uma discussão a respeito da qualidade e padrões da indústria nacional que deixarei para um próximo momento.
Assim, independentemente da quantidade de “economês”, dados e modelos econômicos que estão por de trás das notícias e informações que recebemos, é valido buscar compreender de forma simples como isso pode impactar nossas vidas. Desta forma podemos minimizar impactos negativos e maximizar os impactos positivos, buscando sempre as melhores oportunidades para uma vida financeira mais próspera e equilibrada.
Matheus Spina

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